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NOTÍCIAS
2005Ata independente da SOBRAMES-MG
em 07 de agosto de 2005

Por JC Serufo e NS Oliveira
Fotos de Rodrigo Rocha


Os Sobramistas redescobrindo Macaúbas, Minas Gerais.
  Chegaram os sobramistas, membros, agregados e inocentes. Aos poucos lotaram mesas de oito com dúzias. A comunidade macaubense mostrou presença no plenário movido a comida mineira e arrazoados culturalistas.

  Pela Sobrames falaram os de sempre, presidentes e ex-presidentes, seguidos pela Secretária de Cultura, foram discursos curtos e belezuras, arrancaram risos e aplausos. De barriga cheia toda fala tem sabor de sobremesa.

  Correu de mesa em mesa um poema em construção a inúmeras mãos. Já dobrava a folha quando desapareceu. Talvez um desatento usou-o para o fim correto dos guardanapos, mas ao que tudo indica um local o guardou.

  Um agregado e seus agregadinhos assustaram a todas com suas vestes andinas, mas felizmente, e para o bem dos demais, o tempo os obrigou a despirem seus tríplices agasalhos, toucas e cachecóis.

  Na primeira manhã, a do sarou, todos puderam dar uma mostra de seus trabalhos. Foram momentos sublimes para os amantes da declamação. Já no fim da primeira rodada, o presidente da mesa passou a palavra para um sobramista dormideiro, recém chegado, que matreiro e desavisado negou traque. Seguiu-se encantada narrativa encenada na região por escritor local e a apresentação esgotante do projeto da estrada real.

  Bateu o apetite nos sobramistas, incluindo-se os supostos nepotistas da diretoria, que retornaram ao Trilhos de Minas em busca do saciável. Encontraram comida domingueira de pobre, aquilo que rico come quando pode, a exemplo de tutu, ora-pro-nóbis, frango a molho pardo e apetrechos de feijoada, esta diretamente da senzala para mesas mais requintadas.

  A noite chegou e, além das comilanças, foram agraciados com feira de artesanato e apresentações de conjuntos locais. Entre danças dramáticas, no maracatu, o presidente ensinou os guapos a domarem ondas do mar, cavalgando jangadas imaginárias sob permissíveis joelhos.

  De volta ao convento-hotel, após o toque-toque do caminhar no piso de tábua corrida assentada sobre vigas de madeira e o arrasta camas dos casais mais avolumados, desligaram-se os ouvidos, indicando a distância das cidades. Os citadinos, pela manhã, haviam se deliciado com o leite ao pé da vaca. Acostumados com cotoches e itambés, uns passaram a noite ao pé do vaso. Os casais que não sabiam dividir pinico procuram seus berços esplêndidos de sempre. Os sábios puderam adormecer sem remoer os problemas costumeiros.

  Pela manhã o sol trouxe um pouco do clima interiorano das geraes. Manhã de falas entremeadas por pães de queijo, biscoitos caseiros, cafés e sucos de frutas. A irmã camareira ruborizou-se com a pergunta: Irmã quantas camas a senhora teve que separar e voltar para os lugares certos?
  Logo se recompôs e comentou sobre aqueles que usaram apenas uma cama, como os que usaram três, sendo a do meio para colocar malas e apetrechos.

  Delineou-se assim um novo índice de avaliação de casais hospedados em quartos de hotel-convento, que varia de uma a quatro cruzes, ou melhor, camas, o qual varia inverso à paixão das damas.

  Um hóspede, pelas gretas da janela, desnudou segredos do pátio claustro, com suas parreiras secas, hortas e flores, destoado por calçolas brancas e abundosas. Após algum tempo, contabilizou cerca de 20 reclusas. A maioria de farta idade, sinalizava o final dos tempos.

  A irmã camareira, a mesma que se ruborizou com os intentos acasaladores, surpreendeu ao comentar com esposas sobramistas, na ante-sala do lado albergue do convento, o desfecho de novelas globais. Sinal dos tempos.
  Que reclusão é esse? Afinal, que clausura é essa?
  - É a clausula lá de fora que prende pessoas todos os dias à mesma hora.

  Na segunda manhã, a do concerto ao ar livre, havia um pai porta-corneta, útil nos intervalos das músicas, de uma ninfeta esmilinguida e gosmenta que usava ainda um prendedor de partitura borboletiforme e roseado, à espera de vendavais. Tem pai que é cego, outros são idiotas mesmo.

  Entre os demais membros normais do conjunto musical, um percussionista prazenteiro que mostrou ritmo e balanço no fundo obscuro da cena.

  A banda mostrou aos médicos que sabia tocar diversos tipos de ritmos musicais e não apenas marchinhas binárias como todos poderiam imaginar. Os sobramistas, postados sob a sombra rala de arvores centenárias, ouviram, se encantaram e aplaudiram tudo o que já ouvem nos pacotes televisivos.
Fazer o que... são respingos da globalização.

  A prioresa com seu visual siciliano, com direito a óculos escuro, chegou à porta da reclusa com postura velada e deu seu recado aos paroquinhos e vassalos do entorno, transmitindo sua mensagem com a ponta do nariz. Logo a ordem chegou ao maestro que, contrariado, encerrou a musicata profana. Ah! quão bom seria se o nosso chefe republicano, ex-torneiro mecânico, ex-colega de Senai de um dos sobramista, se espelhasse na eficaz prelada.

  Mas tudo isso, apenas para dar ordem às coisas, afinal naquelas paradas quem manda mesmo é o pároco, que, assim, anunciava sua chegada e o início da missa conventual, em latim de missa como apreço aos renomados.

  Um violino encantou presentes. O canto das freiras, no canto do claustro, começou aveludado e aos poucos se avolumou tomando os ouvidos dos probos, que deram ares de encanto, como o daqueles que um dia ouviram o gramofone pela primeira vez.

  Havia sobramistas atraídos pela curiosidade, outro pela ancestralidade e um, enclausurado pela esposa, a tudo assistia enquanto contava o tempo com ares de penalidade. Os libertos proseavam profanidades no pátio, quando se acercou do grupo um candidato a fâmulo. Disse que encontrava a paz naquele jardim abençoado e que ainda alimentava seu sonho, podado pela abadessa.

  Nos comes e bebes do almoço derradeiro, sob a cantoria ardida do irmão do dono, os convivas trocaram impressões, elogiaram o trabalho da primeira dama e, entre gostos e contragostos, estes certamente poucos, de pronto marcaram novo apronto.

  De tudo, ficou uma áurea longa de gente feliz. Registre-se...

PS: O renomado secretário da Sobrames-MG, um gentleman, mas olvidado, deixou em casa o livro de Atas, motivando este relato independente.


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