Chegaram os sobramistas, membros, agregados e inocentes.
Aos poucos lotaram mesas de oito com dúzias. A comunidade
macaubense mostrou presença no plenário movido
a comida mineira e arrazoados culturalistas.
Pela Sobrames falaram os de sempre, presidentes e ex-presidentes,
seguidos pela Secretária de Cultura, foram discursos
curtos e belezuras, arrancaram risos e aplausos. De barriga
cheia toda fala tem sabor de sobremesa.
Correu de mesa em mesa um poema em construção
a inúmeras mãos. Já dobrava a folha quando
desapareceu. Talvez um desatento usou-o para o fim correto
dos guardanapos, mas ao que tudo indica um local o guardou.
Um agregado e seus agregadinhos assustaram a todas com suas
vestes andinas, mas felizmente, e para o bem dos demais, o
tempo os obrigou a despirem seus tríplices agasalhos,
toucas e cachecóis.
Na primeira manhã, a do sarou, todos puderam dar uma
mostra de seus trabalhos. Foram momentos sublimes para os
amantes da declamação. Já no fim da primeira
rodada, o presidente da mesa passou a palavra para um sobramista
dormideiro, recém chegado, que matreiro e desavisado
negou traque. Seguiu-se encantada narrativa encenada na região
por escritor local e a apresentação esgotante
do projeto da estrada real.
Bateu o apetite nos sobramistas, incluindo-se os supostos
nepotistas da diretoria, que retornaram ao Trilhos de Minas
em busca do saciável. Encontraram comida domingueira
de pobre, aquilo que rico come quando pode, a exemplo de tutu,
ora-pro-nóbis, frango a molho pardo e apetrechos de
feijoada, esta diretamente da senzala para mesas mais requintadas.
A noite chegou e, além das comilanças, foram
agraciados com feira de artesanato e apresentações
de conjuntos locais. Entre danças dramáticas,
no maracatu, o presidente ensinou os guapos a domarem ondas
do mar, cavalgando jangadas imaginárias sob permissíveis
joelhos.
De volta ao convento-hotel, após o toque-toque do caminhar
no piso de tábua corrida assentada sobre vigas de madeira
e o arrasta camas dos casais mais avolumados, desligaram-se
os ouvidos, indicando a distância das cidades. Os citadinos,
pela manhã, haviam se deliciado com o leite ao pé
da vaca. Acostumados com cotoches e itambés, uns passaram
a noite ao pé do vaso. Os casais que não sabiam
dividir pinico procuram seus berços esplêndidos
de sempre. Os sábios puderam adormecer sem remoer os
problemas costumeiros.
Pela manhã o sol trouxe um pouco do clima interiorano
das geraes. Manhã de falas entremeadas por pães
de queijo, biscoitos caseiros, cafés e sucos de frutas.
A irmã camareira ruborizou-se com a pergunta: Irmã
quantas camas a senhora teve que separar e voltar para os
lugares certos?
Logo se recompôs e comentou sobre aqueles que
usaram apenas uma cama, como os que usaram três, sendo
a do meio para colocar malas e apetrechos.
Delineou-se assim um novo índice de avaliação
de casais hospedados em quartos de hotel-convento, que varia
de uma a quatro cruzes, ou melhor, camas, o qual varia inverso
à paixão das damas.
Um hóspede, pelas gretas da janela, desnudou segredos
do pátio claustro, com suas parreiras secas, hortas
e flores, destoado por calçolas brancas e abundosas.
Após algum tempo, contabilizou cerca de 20 reclusas.
A maioria de farta idade, sinalizava o final dos tempos.
A irmã camareira, a mesma que se ruborizou com os intentos
acasaladores, surpreendeu ao comentar com esposas sobramistas,
na ante-sala do lado albergue do convento, o desfecho de novelas
globais. Sinal dos tempos.
Que reclusão é esse? Afinal, que clausura
é essa?
- É a clausula lá de fora que prende
pessoas todos os dias à mesma hora.
Na segunda manhã, a do concerto ao ar livre,
havia um pai porta-corneta, útil nos intervalos das
músicas, de uma ninfeta esmilinguida e gosmenta que
usava ainda um prendedor de partitura borboletiforme e roseado,
à espera de vendavais. Tem pai que é cego, outros
são idiotas mesmo.
Entre os demais membros normais do conjunto musical,
um percussionista prazenteiro que mostrou ritmo e balanço
no fundo obscuro da cena.
A banda mostrou aos médicos que sabia tocar diversos
tipos de ritmos musicais e não apenas marchinhas binárias
como todos poderiam imaginar. Os sobramistas, postados sob
a sombra rala de arvores centenárias, ouviram, se encantaram
e aplaudiram tudo o que já ouvem nos pacotes televisivos.
Fazer o que... são respingos da globalização.
A prioresa com seu visual siciliano, com direito a óculos
escuro, chegou à porta da reclusa com postura velada
e deu seu recado aos paroquinhos e vassalos do entorno, transmitindo
sua mensagem com a ponta do nariz. Logo a ordem chegou ao
maestro que, contrariado, encerrou a musicata profana. Ah!
quão bom seria se o nosso chefe republicano, ex-torneiro
mecânico, ex-colega de Senai de um dos sobramista, se
espelhasse na eficaz prelada.
Mas tudo isso, apenas para dar ordem às coisas,
afinal naquelas paradas quem manda mesmo é o pároco,
que, assim, anunciava sua chegada e o início da missa
conventual, em latim de missa como apreço aos renomados.
Um violino encantou presentes. O canto das freiras, no canto
do claustro, começou aveludado e aos poucos se avolumou
tomando os ouvidos dos probos, que deram ares de encanto,
como o daqueles que um dia ouviram o gramofone pela primeira
vez.
Havia sobramistas atraídos pela curiosidade, outro
pela ancestralidade e um, enclausurado pela esposa, a tudo
assistia enquanto contava o tempo com ares de penalidade.
Os libertos proseavam profanidades no pátio, quando
se acercou do grupo um candidato a fâmulo. Disse que
encontrava a paz naquele jardim abençoado e que ainda
alimentava seu sonho, podado pela abadessa.
Nos comes e bebes do almoço derradeiro, sob a cantoria
ardida do irmão do dono, os convivas trocaram impressões,
elogiaram o trabalho da primeira dama e, entre gostos e contragostos,
estes certamente poucos, de pronto marcaram novo apronto.
De tudo, ficou uma áurea longa de gente feliz. Registre-se...
PS:
O renomado secretário da Sobrames-MG, um gentleman,
mas olvidado, deixou em casa o livro de Atas, motivando este
relato independente. |